Primeiro Capítulo do livro ( O Toque de Um Anjo )

Um.
De Volta.
Um gosto ruim saia de sua boca, algo como se colassem seus lábios. Seu corpo parecia estar em inércia, não conseguia se mover na cama que lhe parecia tão dura. Bom, se talvez, estivesse em uma cama, por que tudo lhe parecia tão ruim e instável que mal poderia acreditar que estava em algum conforto. Ela abriu os olhos, sua visão lhe era embaçada, enquanto passava a mão nos olhos percebeu uma silhueta alta e magra se aproximando enquanto observava apreensiva. A sombra continuava a se aproximar fazendo sua tensão aumentar até perceber quem era.
Karen. — Emily sussurrou enquanto via sua babá se aproximar.
Karen sentou-se ao lado da garota franzina na cama olhou-a com apreço e carinho ao mesmo tempo. Ela passou as mãos nos cabelos caramelos de Emily, aqueles finos cachos lisos que tanto penteou quando ela era pequena e agora ela tinha um pouco de pena da garota, que tinha apenas ela no mundo, prometera que seria mãe e pai onde e quando pudesse. Emily, agora era sua inteira e total responsabilidade.
— Está tudo bem, meu amor? — Por mais que quisesse, ela não disfarçou o sentimento de pena que havia em seus olhos.
Enquanto a babá passava as mãos em seu cabelo questionando-a, Emily observava seu cenho ainda preocupado. Algo estava por detrás daquele rosto tentando transparecer algo, mas ela não entendia o que era.
— Estou — disse. — É tudo verdade não é? — Indagou ainda olhando o rosto de Karen. A babá se aproximou ainda mais, fazendo Emily suspirar triste.
— Precisa ser forte.
Ela abaixou o olhar triste. E observou o vazio que estava lá fora o mesmo vazio que representava seu coração, sua alma, o mesmo vazio que a consumia vez ou outra sem terminar, deixando-a sem nada, sem saída, sem rumo.
— Deus não existe Karen.
As lágrimas, nervosas demais para serem contidas, derramavam-se em seu rosto franzino e visivelmente triste. Enquanto o vento violentava as folhas secas de outono, Emily pensou estar em mais um sonho ruim, mas de certa e real forma logo tomara a consciência de que não estava. Sua pretensão em querer que tudo não tivesse acontecido parecia a açoitar por dentro. Ela não aguentava mais, seu corpo e cérebro estavam cansados beirando a exaustão, mesmo sabendo que não fizera nenhum esforço físico, mas havia tristeza o suficiente para consumir suas energias, e era isso que a deixava exausta... Tudo parece sempre ficar naquela mesmice. Como se nada quisesse mudar, pelo menos era assim que a garota sem fé ou crença, pensava.
— Por que está dizendo isso meu bem?
Emily olhou estranha para sua amorosa babá.
— Por quê? — Ela suspirou tentando sorrir com sarcasmo, mas não conseguiu, teve que abaixar a cabeça para não chorar e conseguir dizer o que pensava. — Ele tirou a uma família inteira de mim.
Ela não conseguia parar de chorar, sua tristeza parecia não ter fim era algo como se não pudesse haver término concreto o bastante para fazê-la parar, pensar refletir e pensar diferente. Karen levantou-se e abraçou a garota aos prantos, ela teria que ser forte e no fundo Emily sabia muito bem disso, mas agora lhe parecia ser mais fácil sofrer e colocar suas mágoas para fora “tudo passa” era o que sua mãe, sempre com um sotaque russo carregado, dizia.
 Um cheiro quente passou pelo quarto, fazendo Emily erguer sua cabeça, então um breve momento depois uma enfermeira entrou, ela era negra, alta e com um sorriso calmo passivamente convidativo.
— Olá! — exclamou a mulher negra e alta com um sorriso cheio de dentes. — Vamos fazer mais alguns exames e logo, logo irá ter alta.
A enfermeira colocou a prancheta em cima do criado mudo ao lado da cama. Checou o soro e observou a agulha dentro da veia de Emily, a garota pareceu não se importar com a leve picada da agulha quando houve a troca. Tudo parecia não importar mais, afinal de contas ela estava só. Karen era a única pessoa com quem poderia contar agora, percebeu que voltar para casa, não era tão interessante assim.
Brevemente ela fechara os olhos, uma mera visão viera a sua mente. Ela ainda se lembrava, os gritos pareciam tão nítidos e reais que quase a fizera se perguntar se era mesmo um sonho; os gritos eram de seus pais, ela ainda se lembrava do rosto de sua pequena irmã Rosalie. De como a tentou a tirar daquela tragédia e de como não conseguiu, isso pareceu piorar ainda mais seu estado, mas por mais que doesse ela ainda mantinha em sua mente a culpa, algo que carregaria pelo resto de sua vida.
— Emi. Precisa se alimentar, meu bem. — Quando ela abriu levemente os olhos, viu Karen ao seu lado com um prato que continha algo amarelo com verduras bem verdes dentro. — Vamos só um pouco.
Emily observou o prato e depois voltou seu olhar para Karen.
— Eu não vou...
— Você precisa e vai comer. Não quero discutir, então vamos. — Ela aproximou a colher. Fazendo Emily ter náuseas, mas sendo obrigada teve que comer a sopa hospitalar. Ela prendia a respiração quando a colher se aproximava, técnica básica que seu pai havia lhe ensinado para não sentir o gosto das coisas que não gostava e achava que poderia ser ruim.
— Quando irei sair daqui?
Karen a olhou, enquanto colocava o prato de volta na bandeja de cama.
— Amanhã. — Disse. Ela olhou para Emily com um jeito sugestivo e suspeito. — Você irá gostar daqui, Petrópolis é uma cidade linda, vamos ficar no rancho de sua família. Disseram que há uma escola particular na cidade, que é ótima, você vai...
— Eu não vou para a escola.
Karen fizera uma expressão no rosto de surpresa, para Emily. Ela não acreditava que a garota que tanto gostou de mimar contra a vontade de seus pais havia dito aquilo, Emily sempre amou estudar.
— C-como assim? — Ela ainda não acreditava.
— Não quero ir, você entendeu? — Disse decidida.
Karen a observou novamente, reservou os milhares de sermões que poderia dar, para mais tarde.
— Vamos conversar mais tarde.
— Karen eu...
— Eu não vou deixar você se trancar por dentro, Emily. — Ela apontou para o coração da garota fazendo Emily abaixar a cabeça talvez arrependida por irritar sua babá. — Digo isso por que vi sua mãe se trancar quando Rosalie nasceu. E se deprimir com certeza não é a melhor saída. — Ela pegou o queixo da garota chorosa, e olhou seu rosto com certa pena, mas consciente que deveria transparecer outra coisa para ela, desinteresse para Emily conseguir ser forte. Karen também deveria ser, por mais difícil que poderia parecer. — Promete para mim que vai ser forte apesar de tudo.
— Karen eu...
— Por favor. Por mim ou... Pela sua família que está olhando por você, seja forte.
Emily suspirou deixando as lágrimas caírem molhando levemente suas mãos machucadas ainda a lembrando de tudo fazendo-a se perguntar se realmente conseguiria ser forte. Mas pela sua família seria com certeza ela seria.
— Eu prometo. — Disse. — Prometo ser forte, mas prometo por você e por minha família.
Karen aproximou-se da garota ainda mais, e beijando sua testa diz:
— Então vamos. Jorge vai adorar saber que você está de volta.




 Primeiro capítulo do livro, pessoal espero que gostem e comprem!
Bjokas!!

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