Capítulo dois


2: Me diga que abrirá os olhos

E
ntro em casa tarde, já é noite, percebo que não conseguirei dormir, percebo que nada mudará e isso me dá um desespero errante. Por que ainda consigo sentir isso? Por que ainda me importo se a daqui dois meses serei morta? Porque quero ter uma vida normal, já que não terei tempo de vivê-la?
Deito em minha cama, que na verdade não é bem uma cama comum. É um monte de palha seca amontoadas em baixo de uma espuma fofa e grande. Me mexo levemente com medo de Mona escutar, respiro profundamente com sono e um seco na garganta. Fecho os olhos, tento adormecer naquele momento, mas apenas depois de horas tentando é que consigo.
________ † ________
O leite estava fervendo quando o coloco na xícara de Mona, ela ainda está com sua cara feia amassada por causa do sono e do travesseiro confortável. Poucas pessoas tinham o privilégio de ter um desses no vilarejo. Seco minhas mãos no avental sujo, e me viro para ajeitar a lenha no fogão. Respiro profundamente, o ar estava úmido e isso com certeza me traria uma forte gripe.
— Irão abrir uma escola aqui perto. — A voz de Mona encheu o ar como líquido em uma jarra. — Gabriel foi fazer sua matrícula esta semana.
Meu corpo gelou neste momento. Em todo momento em que soube que iria ter que estudar, penso que iria para a escola do vilarejo, da turma da Senhora Isabel.
— Mas, pensei que iria para a mesma escola que Gabriel.
No vilarejo Mona, não é tida como uma verdadeira bruxa. E isso se deve ao fato de ela realmente ser uma, tão perversa e má quanto as que já houveram. Ouvi pela fresta da porta, Gabriel comentando com sua namorada, que Mona havia feito um feitiço para todo o vilarejo, onde todos a reconheceriam pela mais bela e bondosa mulher de todas; esse feitiço funciona como uma máscara para esconder o que ela realmente é. Então eu o vi dar a ela um colar pequeno com um pingente em forma de coração, dizendo para ela nunca o tirar porque ele a iria proteger do mundo da minha espécie, inclusive de mim.
Inclusive de mim. Ah! Claro!
— Não você não irá. Sabe o que a cidade pensa a seu respeito, não quero que todos me odeiem. Portanto vai para a nova escola inaugurada semana passada. Irá conviver com aqueles filhinhos de papai, e em fim não lhe devo explicações.
Ela jogou a xícara no prato enquanto eu terminava de lavar as louças. Me viro lentamente, pronta para pegar a xícara da mesa.
— Comprei alguns cadernos e materiais escolares. A escola não exige uniforme então não acho que precise de roupas novas. — Ela fala enquanto se levanta.
Observo-a brevemente.
— Mas eu não tenho o que vestir...
Não consigo terminar de falar, pois ela me dera uma bofetada neste exato momento. Fico parada perto do seu corpo sem exprimir qualquer reação.
— Não, você não precisa. Contente-se com o que tem. Já faço o bastante por ter lhe mantido viva por todos esses anos. Mal posso acreditar que falta apenas dois meses para o dia 21.
Dia 21 é o dia em que serei morta. O dia onde tudo acaba. Onde tudo termina.
Procuro não pensar muito nisso, fico parada observando lá fora desejando que chegasse logo o momento em que iria ver mais um por do sol. Agradeço por ainda não ser inverno, detesto fica o dia todo dentro de casa com ela em meu pescoço me mandando fazer coisas sem sentido algum. Era sempre assim eu realmente vivia de estações, esperando que todas elas demorassem, menos o inverno. Nunca gostei do frio, nunca me simpatizei com a neve.
Me sento no último degrau da escada que dava de entrada para a casa, Gabriel abrira o portão e entrou com pressa. Comecei a descascar as batatas para o almoço enquanto ele entrava na casa, para conversar com Mona, antes de o fazer ele para perto de mim e sorri. Gabriel é como ela, tem cabelos claros e olhos perversos e negros como os da tia. Seus pais morreram em um misterioso acidente de carro em uma viagem à Inglaterra. Nunca descobriram as causas do acidente, e mesmo desconfiando da tia, ele fecha os olhos para as suposições, pois Mona era a única pessoa que ter motivos para matar a irmã e o cunhado, porque a fortuna que os pertencia era grande, saiu no jornal do ano em que eles foram mortos que a fortuna da Família Fernandes estava avaliada em cento e cinquenta bilhões de dólares. Dólares o que quer dizer que é o dobro em nossa moeda. Mas, enquanto ainda não provam nada, as investigações correm como água em um riacho. E nunca terminam.
Gabriel me olhou com um pouco de presunção.
— Está matriculada bruxa! E sinceramente nunca pensei que iria dizer isso, mas estou com pena de você.
Ele deu um sorriso largo, como se estivesse ganho na loteria ou algo do tipo. Olho dentro de seus olhos e o encaro, ele fecha o cenho e parecia com medo naquele momento, então sai da minha presença em passos apressados.
Porque ele estava com pena de mim? A escola era tão ruim assim? Tão perversa e pior do que Mona? Isso é impossível.
Retornei um pouco mais cedo da minha visita ao por do sol neste dia, Mona ainda estava na cidade, e Gabriel estava vendo TV. Sigo para meu quarto e fecho a porta com um pouco de pressa. Pego debaixo de minha cama, um caderno velho e sujo que havia ganhado de minha mãe antes de ser mandada para fora de casa. Vi em seus olhos as lágrimas que pareciam queimar seu corpo, papai nunca demonstrou seus sentimentos, mas o ver chorar naquele momento me fez entender porque, essa é apenas uma das tantas lembranças que não gosto de me recordar. O caderno tem uma capa de couro bem produzida, parecia mais uma herança de família.
Abro na página inicial, havia algumas coisas escritas como: O meu ódio pela vida que levo. Mas, dessa vez decido não interferir muito nisso, prefiro ficar com meus pensamentos, com meus poemas e frases mirabolantes em mente.
Talvez algum dia em possa sorrir,
Talvez algum dia alguém me faça sorrir,
Talvez, somente talvez eu consiga ser feliz.

Eu e essa mania de auto piedade. Mas, não me importo, não com meu caderno. Escrevo mais algumas coisas antes de cair no sono. Antes de perceber que deveria abrir os olhos.

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